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Capítulo XII – Pixuleco

Nos longos minutos, de todos os longos dias, Vaccari, o tesoureiro do Partidos dos Trabalhadores, pensava, no xilindró, como se beneficiaria se pudesse, de fato, voltar no tempo. O tempo, dentro da sala onde vivia desde que foi em cana no mês de abril, custava a passar, mas havia sido treinado para este momento…
Tinha todo um treinamento ‘comunista-de-shopping’ para resistir às pressões do capital visando manter a irmandade, incluindo, proteção extra para manter a imagem do grande guru Brahma intacta. O plano principal era que o grande líder voltasse para vender novas ilusões ao povo e o sequestro de capital dos espoliadores…
Vencido pela fatiga, Vaccari lembrou, daquele dia, com a barba mal feita, lambuzada, de gordura de mocotó, num bar localizado na cidade que deu origem ao Partido dos Trabalhadores. Lá, certa vez, traçou todos os detalhes com o Zé Dirceu de como os encaixotados da Ditadura Militar seriam os novos príncipes da República. Era uma espécie de vingança, um plano arquitetado nos mínimos detalhes!
– R$ 50 pixulecos, gritou do balcão do bar o Francisco, proprietário do recinto, pedindo para que o grupelho pagasse a conta o quanto antes. Tinham por costume consumir fiado.
Ao virar a cabeça, novamente, em direção a Dirceu declarou:
– Os pixulecos manterão nosso projeto. Os coxinhas que aguardem, agora é nossa vez!
Se ele não tivesse naquele bar, naquela noite, naquelas reuniões, a cadeia de fatos nunca teria se desencadeado? Não, o projeto escolheria outra pessoa para fazer o trabalho sujo. O sequestro de capital dos almofadinhas para manter o pagamento de mesada aos pobres e a vida de príncipe ao patriarcado Brahmista é um dogma.
E mesmo se voltasse no tempo e presenciasse todas as reuniões, não seria capaz de eliminar todas as contradições que tal viagem desencadeasse. Afinal, era ele: o do passado e do futuro e todos aqueles acordos, feitos naquele inverno, de certa forma, moldaram o seu presente: tesoureiro, deputado, rico e preso…
 – Eles sempre nos roubaram!
Vaccari, com o tempo, se tornou um assíduo frequentador das principais empreiteiras com sede em São Paulo. Os exploradores do povo teriam que dividir o lucro com a nova casta e aguentar as mesadas populares…
Na UTC, sempre aparecia aos sábados pela manhã. Ele chegava com seu Santa Fé prata, pegava o elevador direto para a sala de Ricardo Pessoa, no 9º andar do prédio.
Dois dedos de prosa, um papel e os rabiscos dos valores e os porcentuais numa folha de papel.
A reunião terminava com a mochila do tesoureiro cheia de “pixulecos” de 50 e 100 reais. O papel com a ordem era picotado e a anotação distribuída aos pedaços em lixos diferentes.
Todos trabalhavam com hipótese de prisão, os mais treinados, de acordo com Brahma, ocupavam funções consideradas suicidas, assim como dito durante as aulas em Havana.
Em caso de prisão, deveriam assumir todo o ônus. Era um código de conduta de guerrilha; assim como os guerrilheiros quando presos pelo exército inimigo, nenhuma pista concreta era dada, foi assim na mesada instituída para pagar o patronato congressista no primeiro mandato de Brahma. A linha de frente assumiu a culpa, Brahma discursou como redentor por todos estes meses…
O medo agora era o pessoal do segundo e terceiro escalão, o Poder trouxe uma acomodação, e muitas das técnicas foram abandonadas. Muitas pessoas acompanharam o sequestro de valores, resultados de licitações falsas e acordos escusos. Novas denúncias aconteceriam, uma questão de tempo…
Estavam de certa forma Vaccari, Dirceu, Brahma, a presidente, o vice Michael e Ikke nas mãos de Wilsinho Berimbau e a planilha oficial do pagamento e direcionamento de propinas durante a dinastia de Brahma perante os patriarcas bruzudanguense?
****
O relógio de fivela marcava 13h13, um loop temporal,  quando Wilsinho desembarcou em São Bernardo do Campo. Nas semanas anteriores, ficou hospedado na casa de um estranho em Araraquara. No quarto, na Vila São José, ele acessou pela primeira vez o pendrive, e viu as planilhas, mas não entendeu o conteúdo. uma reprise da reprise.
Na televisão, a notícia sobre a nova prisão de Zé Dirceu dominava o noticiário. O sol ardia as costas do ex-servente de pedreiro. O açoite era deflagrado pela condição social imóvel.
Com as passagens, seguiu para o ABC.  Num bilhete tosco, deixado pelo dono do imóvel, estava o endereço onde deveria se resguardar até a poeira abaixar. Como um fugitivo, rumo a um novo quilombo, Wilsinho decorava as palavras: TAPAJOS 3, VILA SCOPEL, SÃO BERNARDO DO CAMPO!

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