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Capítulo XIII – Pixuleco II, a caminho de Buenos Aires


Wilson estava ciente de que, a cada minuto, as planilhas seriam alvo de Operação da Lava Jato. A prisão de Chambinho evidenciou, para os investigadores, que os tentáculos do esquema se estendiam por municípios do interior de São Paulo. Local onde foi resgatar os documentos que estavam em posse de prefeito um peemedebista.
O sol ardia, o imóvel abandonado. Uma escrivaninha de aço, empoeirada, uma estante marfim, com documentos supostamente esquecidos pela cúpula do partido. O relógio digital contava os minutos. A cada semana, alguém era preso. Moro deflagrava um atentado ao esquema proletariado de permanência no Poder.
Nesta altura, Baiano já havia sido condenado, junto com Cerveró e Júlio Camargo.
– Que irá pegar esta merda? Indagava Wilsinho ao passar o pendrive de mão a mão, enquanto olhava para baixo.
Três semanas, e nada do celular tocar. Nenhuma mensagem, nenhum aviso. Era atualizado pelo noticiário, estava encrencado.
Na Marechal Deodoro, 1777, acessou a rede para tentar traduzir as planilhas. Na coluna inicial: siglas e apelidos; na posterior: valores e na última o suposto padrinho. As somas de todas as cédulas ultrapassaram os valores que havia visto expresso em texto até aquele momento.  Também, não entendia as cidades mencionas em outra coluna. Supostamente, o Estado estava dividido em distritos, com um cacique, um padrinho e os beneficiados no campo político.
Toda vez, que tentava entender, se cristalizava a certeza de que teria que levar as planilhas para alguém que pudesse traduzi-las. Era um risco, bem sabia…
 Naquela cadeira, azul desbotada, teve uma idéia. Ir até a sede de uma empresa de Consultoria e soluções em Tecnologia e Sistemas para Gestão de Negócios, criada com capital americano. No site da Junta Comercial, os endereços “CENTERVILLE ROAD, SUITE 400, WILMINGTON, NEW CASTLE C ONTRY, DE 19808, DELAWARE, ESTADOS UNIDOS DA AMERICA” ou “AVENIDA CORRIENTES, 345, PISO 4, BUENOS AIRES, ARGENTINA”.
A empresa, de acordo com reportagem, distribuiu R$ 40 milhões em propina para ter acesso aos dados de dois milhões de funcionários públicos federais, sob responsabilidade do Ministério do Planejamento. Outros R$ 12 milhões foram pagos por uma outra, ao operador Milton Pascowitch, um dos delatores da Lava-Jato, que repassou dinheiro ao ex-ministro da Casa Civil José Dirceu.
Mochila nas costas, Wilsinho (e o pendrive) solicitou um táxi para chegar ao acostamento do Rodoanel. O trajeto tinha como destino Foz do Iguaçu. Enquanto esperava o transporte, o celular – com número restrito – tocou:
– Alô? Quem fala?
– A Aline pediu para te ligar. Tu veio aqui em Rio Claro pegar as planilhas?
– Quem está falando?
– Sou amigo do Baiano, do Espanhol e da Aline…
– Que Aline?
– A deputada…
– Não conheço, malandro! Quem é você?
– Preciso pegar a planilha, onde você está?
– Não vou entregá-la, sem saber quem é você…
– Por bem, ou por mal! Não vou pagar de delator e não ter a certeza que estas planilhas sumiram do mapa. Meu pessoal está atrás de você!

“…o campo político é um microcosmo, isto é, um pequeno mundo social relativamente autônomo no interior do grande mundo social. Nele se encontrará um grande número de propriedades, relações, ações e processos que se encontram no mundo global, mas esses processos, esses fenômenos, se revestem aí de uma forma particular” (Pierre Bourdieu)

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