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VI- Wilsinho Berimbau

Capítulo VI – Wilsinho Berimbau

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VI- Wilsinho Berimbau

Nota do autor: Nesta altura dos acontecimentos, ora aqui narrados, o nobre leitor deve estar começando a entender os motivos pelos quais o Brasil, como pátria, ainda é um conceito distante, quando comparado a outros países latinos ou europeus.  As regras da política, aqui passadas de geração a geração, transformam o sistema político da Bruzundanga em patrimônio cultural deste povo, manobrado como gado nos currais eleitorais nos mais distantes rincões.
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Wilson, morador de Paraisópolis, na capital paulista, nunca se interessou pela política como fim e sim como meio. Trabalhava, a cada dois anos, em campanhas eleitorais seja para entregar santinhos ou para segurar bandeiras em semáforos nas principais vias utilizadas pela classe média paulistana.
O primeiro trabalho chegou por acaso. Para conseguir um currículo impresso – fazia três anos que procurava emprego – acatou conselho de seu tio e foi até a Câmara Municipal para tirar cópias gratuitas. No bilhete rasurado e empaçocado no bolso da camisa amarrotada, o conselho era: procura o Alfredinho fio, que te arrumará o xerox (sic).
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A programação era para Wilson (ou Wilsinho Berimbau, como era conhecido) chegar ao prédio da Câmara, no Viaduto Jacareí, às 9h. Ele acordou às 8h50.  A pressa lhe obrigou a sair de casa sem escovar os dentes, o café da manhã era um item supérfluo em sua rotina desde os nove anos quando sua mãe morreu no Viaduto do Chá, nas imediações do Vale do Anhangabaú.
Um pouco de água do rosto, procurou, então, a roupa jogada no chão da cozinha-sala. Sempre dizia: “o preço do pão não paga a pena”. Colocou a pochete e uma camisa dos Racionais, branca.  As tatuagens, com traços toscos, nos braços revelavam a infância na Fundação Casa.  Colocou o pingente de sorte: um mapa mal acabado da África com um rosto borrado de Bob Marley.
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Pois bem, afoito, Wilsinho chegou ao gabinete do vereador que nos anos 80 ajudou a fundar o chamado Partido dos Trabalhadores. O estilo rastafári lhe garantiram 100 cópias e um cartão. O chefe de gabinete, Nilson Baiano, lhe garantiu que estaria na “campanha da vitória” ajudando a militância a conquistar São Paulo naquele ano.
Desde então, Wilsinho era figura assídua nas campanhas. Nunca quis se aprofundar sobre política. Porém sabia como poucos a força monetária e como se dava a conquista de voto.  No primeiro pleito, entregou santinhos. No segundo, baldeava os cabos eleitorais. No terceiro, marcava reuniões com líderes comunitários e estipulava o “preço por cabeça” de cada voto conquistado nas seções eleitorais. Após os números e os depósitos, Wilsinho levava os eleitores para votar em veículos particulares para garantir a votação mínima garantida.
Muitos destes líderes comunitários ficavam com boas quantias pecuniárias semanais, repassavam aos eleitores de seu “curral”: cestas básicas, caminhões de terra, jogos de camisa para futebol de várzea, exames médicos mais rápidos, entre outros.
cabos eleitorais
Naquela manhã, seu celular tocou.
– Baiano, fala mano. O que precisa?
– Tenho um serviço para você, disse o chefe de gabinete.
– E o coro de rato? Indagou Wilsinho.
– Um barão e meio para levar um baguio para o interior. Topa? Indagou.
– Já colo com minha nave em seu terreno, disse Wilsinho aceitando a proposta.
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