Clássicos Filosofia Política

Duplo caráter do trabalho por Karl Marx

Desde a magnitude de como o valor de uma mercadoria representa apenas a quantidade de trabalho incorporada nela, segue-se que todas as mercadorias, quando tomadas em certas proporções, devem ser iguais em valor.

À primeira vista, uma mercadoria se apresentava a nós como um complexo de duas coisas – valor de uso e valor de troca. Mais tarde, vimos também que o trabalho também possui a mesma natureza dupla; pois, na medida em que encontra expressão em valor, não possui as mesmas características que lhe pertencem como criador de valores de uso. Fui o primeiro a apontar e examinar criticamente essa dupla natureza do trabalho contido nas mercadorias. Como esse ponto é o pivô sobre o qual gira uma clara compreensão da economia política, devemos entrar em mais detalhes.

Tomemos duas mercadorias, como uma túnica e 10 jardas de linho, e que o primeiro tenha o dobro do valor do último, de modo que, se 10 jardas de linho = W, o casaco = 2W. A pelagem é um valor de uso que satisfaz uma necessidade específica. Sua existência é o resultado de um tipo especial de atividade produtiva, cuja natureza é determinada por seu objetivo, modo de operação, sujeito, meio e resultado. O trabalho, cuja utilidade é assim representada pelo valor em uso de seu produto, ou que se manifesta ao tornar seu produto um valor de uso, chamamos de trabalho útil. Nesse contexto, consideramos apenas seu efeito útil.

Como o casaco e o linho são dois valores de uso qualitativamente diferentes, também são as duas formas de trabalho que os produzem, alfaiataria e tecelagem. Se esses dois objetos não fossem qualitativamente diferentes, não tivessem sido produzidos, respectivamente, por trabalho de qualidade diferente, eles não poderiam se sustentar na relação das mercadorias. Casacos não são trocados por casacos, um valor de uso não é trocado por outro do mesmo tipo.

A todas as diferentes variedades de valores em uso, existem tantos tipos diferentes de trabalho útil, classificados de acordo com a ordem, gênero, espécie e variedade a que pertencem na divisão social do trabalho. Essa divisão do trabalho é uma condição necessária para a produção de mercadorias, mas não se segue, inversamente, que a produção de mercadorias seja uma condição necessária para a divisão do trabalho. Na comunidade indiana primitiva, há divisão social do trabalho, sem produção de mercadorias.

Ou, para dar um exemplo mais perto de casa, em todas as fábricas o trabalho é dividido de acordo com um sistema, mas essa divisão não é provocada pelos operadores que trocam mutuamente seus produtos individuais. Somente esses produtos podem se tornar mercadorias entre si, como resultado de diferentes tipos de trabalho, sendo cada tipo exercido independentemente e por conta de particulares.

Para resumir, então: No valor de uso de cada mercadoria, há trabalho útil contido, isto é, atividade produtiva de um tipo definido e exercida com um objetivo definido. Os valores de uso não podem se confrontar como mercadorias, a menos que o trabalho útil incorporado neles seja qualitativamente diferente em cada um deles. Em uma comunidade, cujo produto geralmente assume a forma de mercadorias, ou seja, em uma comunidade de produtores de mercadorias, essa diferença qualitativa entre as formas úteis de trabalho que são realizadas independentemente de produtores individuais, cada uma por sua conta, desenvolve dentro de sistema complexo, uma divisão social do trabalho.

De qualquer forma, se o casaco é usado pelo alfaiate ou pelo cliente, em ambos os casos, ele funciona como um valor de uso. Tampouco a relação entre o casaco e o trabalho que o produziu é alterada pela circunstância de que a alfaiataria pode ter se tornado um comércio especial, um ramo independente da divisão social do trabalho. Onde quer que a falta de roupas os obrigasse, a raça humana fazia roupas há milhares de anos, sem que um único homem se tornasse alfaiate. Porém, casacos e roupas de cama, como qualquer outro elemento da riqueza material que não seja o produto espontâneo da Natureza, invariavelmente devem sua existência a uma atividade produtiva especial, exercida com um objetivo definido, uma atividade que apropria materiais específicos da natureza a seres humanos específicos quer, até onde, portanto, o trabalho é um criador do valor de uso, é um trabalho útil, é uma condição necessária, independente de todas as formas da sociedade, para a existência da raça humana; é uma necessidade eterna imposta pela natureza, sem a qual não pode haver trocas materiais entre o homem e a natureza e, portanto, não há vida.

Os valores de uso, casaco, linho, etc., ou seja, os corpos das mercadorias, são combinações de dois elementos – matéria e trabalho. Se retirarmos o trabalho útil despendido sobre eles, sempre resta um substrato material, fornecido pela natureza sem a ajuda do homem. Este último pode funcionar apenas como a Natureza, ou seja, mudando a forma da matéria. Além disso, neste trabalho de mudar a forma, ele é constantemente ajudado por forças naturais. Vemos, então, que o trabalho não é a única fonte de riqueza material, de valores de uso produzidos pelo trabalho. Como William Petty coloca, o trabalho é seu pai e a terra sua mãe.

Passemos agora da mercadoria considerada como um valor de uso para o valor das mercadorias. Pela nossa suposição, o casaco vale duas vezes mais que o linho. Mas essa é uma mera diferença quantitativa que, no momento, não nos interessa. No entanto, temos em mente que, se o valor do casaco for o dobro de 10 jardas de linho, 20 jardas de linho deverão ter o mesmo valor que um casaco. Na medida em que são valores, o casaco e o linho são coisas de uma substância semelhante, expressões objetivas de trabalho essencialmente idêntico. Mas costurar e tecer são, qualitativamente, diferentes tipos de trabalho. Existem, no entanto, estados da sociedade em que um e o mesmo homem costuram e tecem alternadamente; nesse caso, essas duas formas de trabalho são meras modificações do trabalho do mesmo indivíduo, e não funções especiais e fixas de pessoas diferentes, assim como o casaco que nosso alfaiate faz um dia e as calças que ele faz outro dia implicam apenas uma variação no trabalho de um único e mesmo indivíduo.

Além disso, vemos de relance que, em nossa sociedade capitalista, uma determinada porção do trabalho humano é, de acordo com a demanda variável, uma vez fornecida na forma de alfaiataria e outra na forma de tecelagem. Essa mudança pode não ocorrer sem atrito, mas deve ocorrer. A atividade produtiva, se deixarmos de lado sua forma especial, o caráter útil do trabalho, nada mais é do que o gasto da força de trabalho humana. A alfaiataria e a tecelagem, apesar de atividades produtivas qualitativamente diferentes, são cada um gasto produtivo de cérebros, nervos e músculos humanos e, nesse sentido, são trabalhos humanos.

Eles são apenas dois modos diferentes de gastar a força de trabalho humana. Certamente, essa força de trabalho, que permanece a mesma em todas as suas modificações, deve ter atingido um certo grau de desenvolvimento antes que possa ser gasta em uma multiplicidade de modos. Mas o valor de uma mercadoria representa o trabalho humano em abstrato, o gasto do trabalho humano em geral. E, assim como na sociedade, um general ou um banqueiro desempenha um grande papel, mas o mero homem, por outro lado, é uma parte muito pobre, aqui com mero trabalho humano.

É o gasto da força de trabalho simples, isto é, da força de trabalho que, em média, além de qualquer desenvolvimento especial, existe no organismo de todo indivíduo comum. É verdade que o trabalho médio simples varia de caráter em diferentes países e em diferentes momentos, mas em uma sociedade específica é concedido. O trabalho qualificado conta apenas quando o trabalho simples se intensifica, ou melhor, como o trabalho simples multiplicado, uma dada quantidade de qualificados é considerada igual a uma quantidade maior de trabalho simples.

A experiência mostra que essa redução está sendo feita constantemente. Uma mercadoria pode ser o produto da mão-de-obra mais qualificada, mas seu valor, ao equiparar-se ao produto da mão-de-obra não qualificada, representa uma quantidade definida somente dessa última mão-de-obra. As diferentes proporções em que diferentes tipos de trabalho são reduzidos a trabalho não qualificado como padrão, são estabelecidas por um processo social que segue pelas costas dos produtores e, consequentemente, parecem ser fixados pelo costume. Por uma questão de simplicidade, a partir de agora consideraremos todo tipo de trabalho como trabalho não qualificado e simples; com isso, não fazemos mais do que nos poupar do trabalho de fazer a redução.

Assim como, portanto, ao ver o casaco e o linho como valores, abstraímos de seus diferentes valores de uso, assim como o trabalho representado por esses valores: desconsideramos a diferença entre suas formas úteis, tecelagem e costura. Como os valores de uso, casaco e linho, são combinações de atividades produtivas especiais com tecidos e fios, enquanto os valores, casaco e linho, são, por outro lado, meras congelações homogêneas de trabalho indiferenciado, de modo que o trabalho incorporado nesses últimos valores não conta em virtude de sua relação produtiva com tecidos e fios, mas apenas como gasto da força de trabalho humana. A alfaiataria e a tecelagem são fatores necessários na criação dos valores de uso, casaco e linho, justamente porque esses dois tipos de trabalho são de qualidades diferentes; mas somente na medida em que a abstração é feita a partir de suas qualidades especiais, somente na medida em que ambos possuem a mesma qualidade de trabalho humano, a costura e a tecelagem formam a substância dos valores dos mesmos artigos. Casacos e roupas, no entanto, não são apenas valores, mas valores de magnitude definida e, de acordo com nossa suposição, o casaco vale duas vezes mais que os dez metros de roupa. De onde vem essa diferença em seus valores?

É devido ao fato de o linho conter apenas metade da mão de obra que o casaco e, conseqüentemente, que na produção deste último, a força de trabalho deve ter sido gasta durante o dobro do tempo necessário para a produção do primeiro. Embora, portanto, com referência ao valor de uso, o trabalho contido em uma mercadoria conte apenas qualitativamente, com referência ao valor conte apenas quantitativamente, e deve primeiro ser reduzido ao trabalho humano puro e simples. No primeiro caso, é uma questão de como e o quê, no último, de quanto? Quanto tempo? Desde a magnitude de
como o valor de uma mercadoria representa apenas a quantidade de trabalho incorporada nela, segue-se que todas as mercadorias, quando tomadas em certas proporções, devem ser iguais em valor.

Se o poder produtivo de todos os diferentes tipos de trabalho útil necessários para a produção de uma túnica permanecer inalterado, a soma dos valores das tintas produzidas aumenta com o seu número. Se uma demão representa x dias de trabalho, duas demãos representam 2x dias de trabalho e assim por diante. Mas suponha que a duração do trabalho necessário para a produção de um casaco seja dobrada ou reduzida pela metade. No primeiro caso, um casaco vale tanto quanto dois casacos; no segundo caso, dois casacos valem apenas o que era antes, embora em ambos os casos um casaco preste o mesmo serviço que antes, e o trabalho útil incorporado nele permaneça da mesma qualidade.

Mas a quantidade de trabalho gasto em sua produção mudou. Um aumento na quantidade de valores de uso é um aumento da riqueza material. Com dois casacos, dois homens podem ser vestidos, com um casaco apenas um homem. No entanto, um aumento da quantidade de riqueza material pode corresponder a uma queda simultânea na magnitude de seu valor. Esse movimento antagônico tem sua origem no duplo caráter do trabalho.

O poder produtivo refere-se, é claro, apenas ao trabalho de alguma forma concreta útil, a eficácia de qualquer atividade produtiva especial durante um determinado período de tempo depende de sua produtividade. O trabalho útil se torna, portanto, uma fonte mais ou menos abundante de produtos, proporcionalmente ao aumento ou queda de sua produtividade. Por outro lado, nenhuma mudança nessa produtividade afeta o trabalho representado pelo valor. Como o poder produtivo é um atributo das formas úteis concretas de trabalho, é claro que não pode mais ter nenhuma influência sobre esse trabalho, assim que abstraímos dessas formas úteis concretas. No entanto, o poder produtivo pode variar, o mesmo trabalho, exercido durante períodos iguais de tempo, sempre produz quantidades iguais de valor. Mas produzirá, durante períodos iguais, quantidades diferentes de valores em uso; mais, se o poder produtivo aumentar, menos se cair. A mesma mudança no poder produtivo, que aumenta a fecundidade do trabalho e, consequentemente, a quantidade de valores de uso produzidos por esse trabalho, diminuirá o valor total desse aumento na quantidade de valores de uso, desde que essa mudança diminua o tempo total de trabalho necessário para a sua produção; e vice versa.

Por um lado, todo trabalho é, falando fisiologicamente, um gasto de força de trabalho humana e, em seu caráter de trabalho humano abstrato e idêntico, cria e forma o valor das mercadorias. Por outro lado, todo trabalho é o gasto da força de trabalho humana de uma forma especial e com um objetivo definido e, nesse caráter de trabalho útil concreto, produz valores de uso.

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