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A concepção errada de Ricardo sobre a relação entre produção e Consumo nas Condições do Capitalismo por Karl Marx

Um aspecto ainda mais estranho da superprodução é que os trabalhadores, os verdadeiros produtores das mesmas mercadorias que abundam no mercado, precisam dessas mercadorias.

Vejamos mais de perto como Ricardo busca negar a possibilidade de uma superabundância geral no mercado:

“Pode ser produzido muito de uma mercadoria específica, da qual pode haver tal excesso no mercado, a ponto de não restituir o capital gasto nela; mas este não pode ser o caso com respeito a todas as mercadorias; a demanda por milho é limitada pelas bocas que irão comê-lo, por sapatos e casacos por pessoas que irão usá-los; mas embora uma comunidade, ou parte de uma comunidade, possa ter tanto milho, e tantos chapéus e sapatos quanto pode ou deseja consumir, o mesmo não pode ser dito de toda mercadoria produzida pela natureza ou pela arte. Alguns consumiriam mais vinho, se tivessem a capacidade de obtê-lo. Outros, tendo bastante vinho, desejam aumentar a quantidade ou melhorar a qualidade de seus móveis. Outros podem querer ornamentar seus jardins ou ampliar suas casas. O desejo de fazer tudo ou parte disso está implantado no seio de cada homem; nada é necessário senão os meios, e nada pode permitir os meios, mas um aumento da produção ”

(l.c., pp. 341-42)

Poderia haver uma discussão mais infantil? Funciona assim: mais de uma determinada mercadoria pode ser produzida do que pode ser consumido dela; mas isso não pode se aplicar a todas as mercadorias ao mesmo tempo. Porque as necessidades que as mercadorias satisfazem não têm limites e todas essas necessidades não são satisfeitas ao mesmo tempo. Pelo contrário. A satisfação de uma necessidade torna outra, por assim dizer, latente. Assim, nada é necessário, exceto os meios para satisfazer esses desejos, e esses meios só podem ser fornecidos por meio de um aumento na produção. Portanto, nenhuma superprodução geral é possível.

Qual é o propósito de tudo isso? Em períodos de superprodução, uma grande parte da nação (especialmente a classe trabalhadora) está menos abastecida do que nunca com milho, sapatos etc., para não falar de vinho e móveis. Se a superprodução só pudesse ocorrer quando todos os membros de uma nação tivessem satisfeito até mesmo suas necessidades mais urgentes, nunca poderia, na história da sociedade burguesa até agora, ter havido um estado de superprodução geral ou mesmo de superprodução parcial . Quando, por exemplo, o mercado está saturado de sapatos, chitas, vinhos ou produtos coloniais, isso talvez signifique que quatro sextos da nação têm mais do que suprido suas necessidades em sapatos, chitas, etc.? Afinal, o que a superprodução tem a ver com necessidades absolutas?

Preocupa-se apenas com a demanda respaldada pela capacidade de pagamento. Não é uma questão de superprodução absoluta – superprodução como tal em relação à necessidade absoluta ou ao desejo de possuir mercadorias. Nesse sentido, não há superprodução parcial nem geral; e um não se opõe ao outro.

Mas – dirá Ricardo – se há tanta gente que quer calçado e chita, por que não obtêm os meios para os adquirir, produzindo algo que lhes permita comprar calçado e chita? Não seria ainda mais simples dizer: por que eles não produzem sapatos e chitas para eles? Um aspecto ainda mais estranho da superprodução é que os trabalhadores, os verdadeiros produtores das mesmas mercadorias que abundam no mercado, precisam dessas mercadorias. Não se pode dizer aqui que eles deveriam produzir coisas para obtê-las, pois eles as produziram e, no entanto, não as receberam. Tampouco se pode dizer que uma mercadoria específica satura o mercado porque ninguém a deseja. Se, portanto, é até mesmo impossível explicar que a superprodução parcial surge porque a demanda pelas mercadorias que abundam no mercado foi mais do que satisfeita, é totalmente impossível explicar a superprodução universal declarando que existem necessidades, necessidades não satisfeitas, para muitos das commodities que estão no mercado.

Continuemos com o exemplo do tecelão de chita. Enquanto a reprodução continuasse ininterruptamente – e, portanto, também a fase dessa reprodução em que o produto existente como mercadoria vendável, a chita, era reconvertido em dinheiro, pelo seu valor – tanto tempo, digamos, os trabalhadores que produziam a chita, também consumiam uma parte dela, e com a expansão da reprodução, ou seja, com a acumulação, estavam consumindo mais, ou também mais trabalhadores estavam empregados na a produção de chita, que também consumia parte dela.

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