Tupi

A antropologia do Estado de São Paulo por Hermann Von Ihering

Traduzido da 2." edição inglesa deste estudo, que fora elaborado para ser distribuído, a pedido da comissão respectiva, na Exposição Universal de São Luiz, U. S. A., 1904.

Os Índios atuais

O litoral do Brasil, na época da descoberta, estava habitado por indígenas pertencentes as duas nações: Tupi e Tapuya. Estes últimos, os antigos donos desta região, tinham sido rechaçados da costa á Serra do Mar e para o interior do país, pelos povos tupis, que ocupavam a costa, desde a foz do Amazonas até a do Rio da Prata.

A diferença linguística entre os Tupis e Tupinambás do Rio de Janeiro e do Norte do Brasil e os Guaranis do Brasil meridional era tão pequena, que se tornou fácil aos portugueses entenderem-se por meio de uma só língua por toda parte com todos estes indígenas, tendo sido por este motivo adoptada a denominação de «-Língua Geral-> para o conjunto destes diversos dialetos tupis.

Da mesma língua geral serviam-se os padres para a catequese dos índios e dela provem também a maior parte das denominações de localidades, bem como os nomes de animais e de plantas indígenas, que enriqueceram o nosso idioma europeu.

A denominação de «Tapuyas> para os povos que não eram tupis, aparentemente de um valor prático apenas, foi reconhecida como sendo bem fundada, pelas investigações modernas, que nos demonstraram serem estas numerosas tribos aparentadas entre si, não só sob ponto de vista
etnográfico, mas também com relação aos seus caracteres físicos. O crânio dos Tapuyas “é dolicliocephalo, o dos Tupis brachycephalo. Tribos das familias Carib e Aruac, bem representadas nas regiões centrais e ocidentais do Brasil, nunca existiram no Brasil oriental e meridional. Está de acordo com este resumo histórico o fato de pertencerem os indígenas, que atualmente se encontram nos quatro Estados meridionais do Brasil, a dois grupos: aos Guaranis e aos Jês, que são o elemento
predominante entre os Tapuyas.

O numero dos indígenas ainda domiciliados no Estado de São Paulo é presentemente muito reduzido, não excedendo provavelmente a dez mil indivíduos.

A distribuição dos mesmos no Estado de São Paulo é tal que no Vale do Rio Paranapanema e na grande
região de matas percorrida por seus afluentes, vivem os Índios independentes e pagãos, ao passo que os indígenas aldeados e catequisados são encontrados no litoral e na parte meridional do Estado. Examinaremos em seguida separadamente estes diversos elementos.

Os Guaranis ou Tupis meridionais são todos cristãos e usam em geral os utensílios e vestidos, bem
como muitos costumes dos brasileiros, cujos nomes de família adoptaram e cuja língua entendem mais ou menos.

Os Guaranis do Rio Verde, que quase anualmente visitam a capital do Estado, para reclamar contra a usurpação de parte de seus terrenos pelos fazendeiros vizinhos, conservaram pouco de seus antigos costumes.

Outros grupos de Guaranis vivem no litoral entre Santos e Iguape e estes ainda sabem executar bonitos trabalhos em penas de cores. Em parte já são cruzados com elementos da população luso-brasileira.

Os Cayuás (Kaiowá)

Família guarani kaiowa. Foto: acervo Museu do Índio, 1943.

Os Cayuás do Vale do rio Paranapanema representam os Guaranis independentes, mas sabemos que
só nos anos de 1830-1852 imigraram do Paraguai e do Mato Grosso meridional para o seu domicilio atual nos Estados de S. Paulo e Paraná.

Sua cor é a de cobre amarelado, a estatura é mediana. Os homens andam nus, ou com um cinto ; as mulheres usam, ao redor da cintura, uma estreita fita de embira ou um tecido, denominado cheripá. Os homens cortam os cabelos e perfuram o lábio inferior, metendo na abertura um tembetá de resina de jatahy, um cilindro transparente de 20 cm. de comprimento, mais ou menos; as mulheres costumam pintar o rosto com traços lineares. Fabricam louças de barro em que cozinham e em que guardam seus alimentos. Suas armas são o arco, a flecha, a lança e o cacete. As flechas são munidas de compridas pontas de madeira, simples ou farpadas de um ou dos dois lados.

Informações mais minuciosas do que sobre os Cayuás do Vale do Paranapanema, as quais devemos principalmente ao Dr. Theodoro Sampaio, temos com relação aos Índios de igual nação do Alto Paraná, contidas numa valiosa monografia de Ambresetti. Verifica-se por ela que estes índios já deixaram vários de seus antigos costumes característicos, como o de dormirem em redes e o da , isto é, do uso de o pai guardar o leito em vez da mãe, por ocasião do nascimento de uma criança. Como um resto deste costume pôde-se considerar a dieta rigorosa a que se sujeitam ambos os cônjuges antes do parto.

Essas modificações secundarias dos costumes característicos dificultam o estudo etimológico, de
modo que um quadro completo só pôde ser traçado pela comparação das condições atuais com as que constam dos relatórios dos antigos escritores. Assim a antropofagia pertence já aos costumes abandonados pelos Cayuás, enquanto que conservam ainda a poligamia. Sepultam o defunto em posição acocorada em sua cabana, a qual queimam depois do enterro, para o qual usavam antigamente de grandes urnas funerárias. Também o antigo costume de dormir em redes já está quasi abandonado, servindo as pequenas redes em suas casas mais como assento e para as crianças do que para cama dos adultos, os quais dormem no chão.

Os atuais Cayuás distinguem-se vantajosamente por sua sobriedade, não preparando eles bebidas alcoólicas. São bastante tímidos e usam geralmente de amuletos para a caça e o amor, os quais denominam «payé». As suas cabanas, denominadas «tapui>, são espaçosas, construídas de madeira e cobertas de folhas de palmeira. Estas cabanas são construídas no mato, onde preparam também as roças destinadas ás suas plantações. Como alimento em primeiro lugar lhes serve o milho; plantam
também mandioca, batatas e algodão, e deste sabem confeccionar tecidos, elegantes gorros, etc. Os homens são bons caçadores e pescadores e sabem pegar muitos animais em mundéus e urupucas.

Informa-nos o Dr. Theodoro Sampaio (N.” 43) que no Vale do rio Paranapanema encontrou Guaranis e Cayuás. É necessário notar, entretanto, que a diferença entre ambos é insignificante, sendo em geral os Guaranis de tez um pouco mais clara e distinguindo-se eles entre si. Talvez sejam os Guaranis o elemento mais antigo, sendo os Cayuás recém-imigrados.

O nome destes Índios, escreve-se Cayuá ou Cainguá e não deve ser confundido com o dos Cayowas do Alto Tapajós. O nome dos Cayuás as vezes é escrito «Caingue>, o que explica a possibilidade de esta tribo ser confundida com a dos Caingangue.

Siemiradzki (N.° 49) distingue Cainguás e Caingues entre os indígenas do Paraguai e Ehrenreieh menciona (N.° 10) Kainguá e Kaiowa, mencionando ainda no mapa Caioa e Cangua. Estes autores não deixam dúvida sobre que as referidas tribus pertençam á família guarani e o mesmo diz Castelnau de seus Cayowas do Paraguai, que, como já disse, não devem ser confundidos com os Cayowas do Alto Tocantins.

Para evitar pelo futuro equívocos com relação aos Cayuás do Brasil meridional e Paraguai e aos do rio Tocantins, será conveniente designar os Cayuás do Brasil meridional com o nome de Notocayuás.

Julgo conveniente dar publicidade aqui a duas tabelas craneométricas referentes aos Índios deste grupo.

NomesAnos/Aprox.AlturaComp. rosto (mm)Comp. nariz (mm)Comp. cabeça (mm)Largura cabeça (mm)Índice cefálico
Capitão Antonio Jesuino Rodrigues481,7052538018515583,8
Antonio Pedro551,6302578718614678,5
Joaquim Leme461,6252488418115082,9
Joaquim Fortunato de Souza301,6952487918915280,4
José Pedro151,4202306617915083,8
José Baptista181,6302559019415177,8

No ano passado o Sr. Ricardo Krone procedeu a um exame dos Guaranis do Vale do Rio Itariri e de
seu afluente, o Rio do Peixe, procedendo segundo instruções por mim recebidas e por ordem da Comissão Executiva da Exposição de São Luiz. O Sr. Krone nesta ocasião examinou 13 indivíduos, 8 homens e 5 mulheres.

Um ponto de especial interesse é o facto da pronunciada brachycephalia destes índios que é de 82,4
para a serie total, sendo, segundo as indicações do Sr. Krone, de 81,1 para os homens e de 84,4 para as mulheres. Parece-me entretanto, terem-se dado alguns enganos neste sentido. Assim por exemplo no individuo numero VII (José Joaquim) o comprimento é de 90 mm., a largura de 152 mm., o que corresponde ao índice cefálico de 80 e não de 75, 6 como indica a tabela do Sr. Krone.

Acontecendo que no calculo dos índices da tabela do Sr. Krone, referente a estes Guaranis dos rios Itariri e do Peixe, se deram vários enganos, dou aqui a tabela exata dos índices cefálico:

HomensCompr.LarguraÍndiceMulheresCompr.LarguraÍndice
I18,214,780VIII181583
II18,61581IX17,814,883
III18,41581X1715,390
IV1915,883XI1814,882
V1915,581XII1714,585
VI18,515,583
VII1915,280
XIII1915,481

Um ponto que não estou de acordo com o Sr. Krone, é a pureza do sangue dos indivíduos examinados. O Sr. Krone exclui dos índios puros os sob números 5, 6, 8 e 10, considerando os demais como Guaranis legítimos.

Noto, entretanto, que entre os supostos tipos legítimos há vários de cabelos crespos e outros que
tem o cabelo grisalho, embora contem apenas 40 ou 45 anos de idade.

E pois de supor que também os indivíduos presumidos legítimos em parte já sejam mestiços. Com esta conclusão se acha de conformidade a desigualdade das fisionomias, de entre as quais é impossível reconhecer um tipo comum ou uniforme; de outro lado, porém, a configuração do crânio é bastante
uniforme, o que evidentemente é devido ao facto de terem tido crânio brachycephalo também os elementos nacionais que se mesclaram com estes índios do Vale do Rio Ribeira.

Em geral as observações do Snr. Krone se acham de conformidade com as minhas, feitas em Índios guaranis do Rio Verde, com a exceção só de serem estes de estatura um pouco mais alta.

Será conveniente lembrar aqui também o excelente estudo do Sr. Juan Ambrosetti sobre os Cayuás, o qual contem dados antropológicos que estão de pleno acordo com as minhas observações e as do Sr. Krone. Podemos dizer neste sentido que o grupo guarani nos é bem conhecido em relação a sua antropologia, etimologia, linguística, historia e arqueologia. São infelizmente ainda poucas as tribos brasileiras de que se tem um conhecimento tão completo.

Os Caingangs

Foto histórica de índios Caingangue (1910) Documento sob guarda do Arquivo Nacional

A este grupo de índios pertencem unicamente os temidos « Bugres » do Brasil meridional, que tantos embaraços tem oposto á população do interior ou sertão do nosso país. O antigo nome deste grupo era o de Guayanãs, mas esta denominação perdeu-se sucessivamente, tendo sido conservada apenas no oeste do Estado de S. Paulo, nos municípios de Itapeva e Faxina. Em geral são atualmente conhecidos sob os nomes de «Bugres» e de «Coroados», referindo-se esta ultima denominação ao costume que tem, de cortar o cabelo do vértice em forma de coroa, uso que entretanto já foi abandonado por algumas tribos. Esta denominação de Coroados porém é sumamente imprópria, porque induz a confundi-los com os verdadeiros Coroados do Estado de Minas e Mato Grosso. Embora desde muito seja sabido que entre os indígenas designados com este nome no Brasil meridional e no Mato Grosso, não existem relações de verdadeiro parentesco, sempre de novo originaram-se deste modo equívocos, como ainda aconteceu, há pouco, ao eminente linguista Brinton (N.° 8), pois que reuniu os Caingangs, sob o nome de Coroados, e os Camés com os Coroados e Carajás (American Race, p. 260), separando-os dos Tapuias, ao passo que os Guayanãs são erroneamente considerados como pertencentes á família Tupi. Por este motivo acostumamo-nos no Brasil a chamar de «Caingangs» a estes Pseudo-Coroados do Brasil meridional. E’ assim que eles mesmos se denominam, significando esta palavra «gente do mato», e é notável a coincidência da palavra «cá» —mato, com a mesma denominação na língua tupi.

Foi Telemaco Borba (N.” 7) o primeiro que em 1882, introduziu na literatura científica esta denominação, seguindo-lhe pouco depois neste exemplo o Visconde E. de Taunay.

E’ preciso, entretanto, notar que, em vez da denominação geral do grupo, as vezes são usadas as denominações locais de diversas tribos componentes do grupo. Assim é usada em Santa Catharina a denominação Socré, evidentemente idêntica com a de Xocren, usada no Estado de Paraná, e no mesmo Estado, como no de S. Paulo, conservou- se também a denominação de Camés para uma tribu moradora dos campos.

As diversas tribos, de que se compõe a nação dos Caingangs no Estado de Paraná, são, segundo a memoria do Visc. de Taunay: Camés, Votorões, Dorins, Xoerens e Tavens.

No Estado de S. Paulo temos de mencionar os Camés, aldeados no litoral entre Santos e Iguape, os Guayanas de Itapeva e Faxina e os Caiugangs do Vale do Paranapanema e de seus afluentes, que, como já dissemos, geralmente são denominados Coroados. Eram estes Índios que nos anos de 1880-1886 cometiam inúmeros e bárbaros assaltos e assassinatos, dificultando sumariamente o povoamento da zona. Sobre este assunto acham-se colhidos os respectivos dados na memoria do Dr. Theodoro Sampaio (N.° 43). Os mesmos Caingangs assaltaram e exterminaram a expedição de Monsenhor Claro
Monteiro, destinada á exploração do rio Feio e catequese dos Índios do Bauru, sendo o mesmo sacerdote morto por esta ocasião, a 22 de maio de 1901.

Os Caingangs vivem em pequenas aldeias, compostas de simples choupanas, cobertas com folhas de palmeira, destinadas ás diferentes famílias. De dia e de noite fica aceso no meio da cabana um fogo, deitando-se os moradores sobre pedaços de casca de arvore, com os pés virados contra o fogo. Os homens andam nus, usando porém na estação fria de panos grossos, feitos das fibras da ortiga brava. Estes panos, Curús, ornamentados com desenhos lineares, representam uma particularidade industrial dos Caingangs. O seu alimento é constituído particularmente pela caça e frutos do mato;
plantam também milho e fazem grande colheita de pinhões.

Os pinheiros desempenham papel importante na vida dos Caingangs e parece-me que a antiga distribuição destes deve ter sido mais ou menos idêntica com a da Araucaria brasilíensis. As armas são arcos e flechas, cujas pontas são feitas de pedra, ossos de macacos ou de ferro europeu. Não usam pontas de flechas feitas de bambu e, como parece, tão pouco as de madeira, embora provavelmente algumas tribos adoptassem esta qualidade de flecha de seus vizinhos.

Existe o costume da poligamia, mas o número de mulheres em geral não excede a duas ou três. Para
suas festas preparam uma bebida alcoólica de pinhões e milho. Os enterros se fazem no chão, elevando-se em cima do cadáver um túmulo de ca. de 2 m. de altura, em forma cónica. Em geral não são canoeiros, estando pouco acostumados á vida nos grandes rios. Parece que neste sentido e no da pescaria aprenderam com os seus vizinhos Guaranis, pois que, em caso contrario, seria estranhável que as palavras para peixe (pirá) e cerco de peixe (pari) lhes tenham provindo da língua tupi. Assam a carne, a qual não comem crua, nem são antropófagos ; não conhecem o uso do sal. Fazem uma qualidade de pão de milho apodrecido.

Quase tudo que sabemos da vida dos Caingangs refere-se a observações feitas nos Estados do Rio Grande do Sul e do Paraná, com relação a Índios aldeados. A cultura dos Caingangs ou « Coroados » de S. Paulo é-nos quase inteiramente desconhecida, mesmo por serem eles absolutamente refratários a qualquer relação amistosa com a população brasileira, ainda quando estes estejam em companhia de indígenas que falem a sua língua. No correr dos últimos anos tivemos a lamentar no Estado de São
Paulo o assassinato do Monsenhor Claro Monteiro, fato ao qual já acima nos referimos, bem como dois assaltos praticados contra expedições da Comissão Geográfica e Geológica deste Estado. O primeiro destes assaltos deu-se á margem do Rio Feio, tendo sido neste ocasião feridos por flechadas o chefe da turma exploradora, Dr. Olavo Hummel e diversos camaradas. O segundo encontro deu-se no Rio do Peixe por ocasião da descida das canoas da turma chefiada pelo Dr. Gentil Moura que explorava o curso do Rio do Peixe.

Sobre esta exploração, que constatou que o Rio do Peixe é o mesmo rio que no curso inferior tem o nome de Aguapehy, publicou o chefe da Comissão Geográfica, Dr. João Pedro Cardozo (N.” 9), um relatório minucioso e ricamente ilustrado.

Por ocasião do segundo assalto mencionado, de 24 de Setembro de 1906, o pessoal da expedição lançou-se imediatamente á perseguição dos selvagens, batendo as matas e descobriu-se por esta ocasião a maloca dos mesmos Caingangs. As informações que sobre esta exploração contem o referido relatório, juntamente com os interessantes objetos etnográficos guardados na Comissão Geográfica de São Paulo, e em parte oferecidos ao Museu Paulista, modificaram a situação precária quanto
ao conhecimento dos Caingangs de São Paulo, de modo que em seguida podemos dar algumas informações exatas.

As miseras choupanas dos Caingangs consistem apenas em algumas varas enfincadas no chão, no interior da mata; formam uma espécie de toldo de barraca, aberto nos dois lados, com cumeeira no meio e coberto com folhas de palmeiras. São pequenas e evidentemente destinadas cada uma a um só casal. Os Índios dormem no chão, sobre uma cama de folhas secas. Não tem plantações, nutrindo-se de caça, peixes, frutas selvagens, mel de páo, etc. A carne é assada em uma cova aberta ao lado da choupana, entre pedras aquecidas. Afim de melhor poder lidar entre estas pedras quentes e com as brasas usam de pinças de madeira, que são cuidadosamente trabalhadas na parte superior, intermedia entre os dois braços. Estes selvícolas não tem vestimentas, mas segundo informações que obtive, usam as vezes uma cinta estreita, de tecido.

Na época do frio cobrem-se com panos grossos, feitos das fibras da ortiga brava e denominados na língua deles Curú. Os exemplares de nossa coleção tem 164X130 cent, de dimensão e uma grossura de 3 mm.

Quase sempre notam-se nesses panos desenhos lineares em ziguezague, produzidos por fios tingidos de cor pardo-escura.

As armas consistem em tacapes, que são apenas compridas varas descascadas, bem como arcos e flechas. Estas últimas são feitas da cana do Taquary, munidas na extremidade posterior de penas de Mcauco, Gavião ou outras aves e tendo na outra extremidade uma ponta de osso ou de ferro. Evidentemente gostam muito para tal fim de instrumentos de metal, que obtém pelos seus assaltos ás moradias dos sertanejos. As pontas de osso consistem em pedaços de ossos de extremidades de mamíferos, em geral pequenos e aguçados; raramente cortam lascas mais largas de ossos de mamíferos maiores. A ponta é adaptada, em posição obliqua, á extremidade da cana, á qual é firmemente ligada por tiras de imbé. Vi também na Comissão Geográfica um virote de ponta grossa, de madeira, cuja parte axial se prolongava para diante em uma ponta fina, de alguns centímetros de comprimento. Os arcos, feitos era geral de madeira de Pau de arco, são fortes, de secção circular, tendo os de caça um comprimento de 2 metros e os de guerra quase 3 metros.

Entre os utensílios domésticos notamos ainda vasos de barro cozido, de forma alongada, alta, cónicos
em baixo e munidos logo abaixo da orla de um largo sulco. Um destes potes foi encontrado ainda- cheio pela metade com mel. Foram encontrados nas cabanas do Rio do Peixe cestos bem trabalhados de taquara, um porongo revestido de um tecido ralo de alguns poucos fios grossos e cheio de folhas de erva-mate, secas e socadas.

Os únicos objetos de enfeite que lhes conhecemos são colares com dentes incisivos de macacos. Não estou bem informado quanto a seus instrumentos de musica, mas sabemos que das brácteas de coqueiros preparara buzinas, cujo som se ouve a grande distancia. E’ particularmente em suas expedições guerreiras que eles se servem destas buzinas e o seu grito alarmante muitas vezes tem assustado os colonos domiciliados em terras próximas dos territórios dos índios, Retirando-se eles depois de seus assaltos para os esconderijos, os Caingangs procuram reter os perseguidores, deitando, escondido em meio das suas picadas, os estrepes, feitos de pontas de osso, reunidos em maço por cera e fios, que devem ferir horrivelmente o pé da vítima que sobre eles pisar descalço.

Os Chavantes

Menino Xavante, abril de 1959. Arquivo Nacional. Fundo Correio da Manhã. BR_RJANRIO_PH_0_FOT_04445_007

Os Chavantes do Vale do Rio Paranapanema não são, como Ehrenreich o pensou, uma tribo dos Caingangs, mas um grupo independente da família Gês.

Existem dois vocabulários de sua língua, publicados por Ewerton Quadros (N.° 12) e Telemaco Borba
(N.” 7). É evidente pelos mesmos que o seu idioma é diferente do dos Chavantes de Goiás e Mato Grosso, motivo por que receberam o nome de Eeochavantes (N.°1 9). As melhores informações sobre estes « Chavantes > do Estado de S. Paulo, que vivem nos campos entre os cursos inferiores dos rios Paranapanema e Tietê, devemos ao general Ewerton Quadros, e em seguida as reproduzimos. Os Chavantes são os mais escuros e mais atrasados de entre todos os índios de S. Paulo; alimentam-se de caça, insetos e larvas, e, impelidos pela fome, chegam-se também ás habitações dos sertanejos, para roubar nas roças e matar os animais domésticos; com tudo não se tornara perigosos, pois não agridem ninguém e são antes tímidos, e, pelo contato mais frequente, tornam-se dóceis e fieis. Têm os pés pequenos, as pernas finas, o ventre crescido; mandíbulas salientes, olhos pequenos e horizontais. Seus arcos são feitos do cerne da palmeira e as pontas de suas flechas do cerne do alecrim, tendo muitas farpas de um só dos lados; suas lanças, do cerne da aroeira, medem 2″ 50 de comprimento quando destinados a homens e 1″ 50 os das mulheres. Todos eles, homens, mulheres e crianças, usam de um cordão de embira ao redor da cintura, tendo o das mulheres um apêndice, que passa por entre as pernas. Todos eles cortam os cabelos ao redor da cabeça, e fazem cortes longitudinais no pavilhão das orelhas. Usam colares de dentes de animais, e não fabricam e nem se servem de louça. Suas choupanas, feitas de folhas de palmeira, são muito baixas e acanhadas, não se podendo alojar nelas mais de um casal em cada uma.

Os Chavantes repelem a poligamia, e não empregam suas armas contra o homem. Enquanto que quase todas as palavras do vocabulário dos Cayuás e dos Coroados são agudas, as dos Chavantes tem quase todas o acento agudo na penúltima sílaba.

Os atuais Índios do Estado de S. Paulo não representam um elemento de trabalho e de progresso. Como também nos outros Estados do Brasil, não se pode esperar trabalho sério e continuado dos Índios civilizados e como os Caingangs selvagens são um empecilho para a colonização das regiões do sertão que habitam, parece que não há outro meio, de que se possa lançar mão, senão o seu extermínio. A conversão dos Índios não tem dado resultado satisfatório ; aqueles índios que se uniram aos portugueses imigrados, só deixaram uma influencia maléfica nos hábitos da população rural. É minha convicção de que é devido essencialmente a essas circunstâncias, que o Estado de S. Paulo é obrigado a introduzir milhares de imigrantes, pois que não se pode contar, de modo eficaz e seguro, com os serviços dessa população indígena, para os trabalhos que a lavoura exige.

Tradições históricas

Por esta minha descrição dos Índios, que atualmente vivem no Estado de S. Paulo, torna-se evidente
que eles perderam a maior parte de seus antigos usos característicos. Em geral os índios catequisados, que estão domiciliados nas aldeias deste Estado, não oferecem nenhum interesse etnográfico e aqueles, que a este respeito são dignos de atenção, levam uma vida retirada e são inacessíveis, tornando-se- perigosos á escassa população civilizada do sertão. Exemplo disto foram os excessos de 1901 no município de Bauru, aos quais já pouco acima nos referimos. Nestas circunstâncias os nossos conhecimentos destes aborígenes teriam sido muito incompletos sem as valiosas informações que se acham na literatura do século XVI. Neste sentido o «Roteiro de Gabriel Soares de Souza» (N.° 53) é de suma importância. Não obstante o autor desse Roteiro não ter vivido em S. Paulo, ele manifesta conhecimentos profundos das tribos que então habitavam o território do Estado de S. Paulo. Os principais entre estes, segundo sua narração, eram os seguintes : os Tubinambás, os Carijós, e os Guayanãs. Estes últimos, como nele diz o autor; dormem sobre o chão e sua língua distingue-se da dos Tupis. Por isso é evidente que os Guayanãs eram os antecessores dos Caingangs, que, em certos
distritos do Oeste do Estado, conservaram ainda no correr do século passado o nome de Guayanãs. No tempo do descobrimento do Brasil os Guayanãs habitavam a Serra do Mar e as planícies onde agora está situada a capital de S. Paulo. Os Carijós viviam entre Cananeia e Santa Catharina, enquanto que os Tubinambás ocupavam a região entre Santos e Angra dos Reis, perto do Rio de Janeiro.

Hans Staden (N.° 50), que nos anos de 1549-1554 viveu como prisioneiro entre os Tupinambás ao Norte de Santos, publicou um livro interessante sobre sua atividade entre os selvagens. O estudo critico deste livro mostrou que ele merece toda fé; particularmente com relação a tudo quanto ele mesmo pode observar. Mas as informações que obteve indiretamente, [como por exemplo a antropofagia dos Guayanãs, não devem merecer o mesmo credito. A antropofagia, usual entre os Guayanãs e Tupis, não era praticada pelos povos da família dos Jês. Assim ainda Ewerton Quadros afirma que os Cayuás devoravam seus prisioneiros, em quanto que sabemos que os Guayanãs e Caingangs não comiam carne humana.

Os tupis

Índia tupi do século XVII, por Albert Eckhout, 1641.

Os Tupis, como Hans Staden os descreve, eram um povo enérgico e belicoso, canoeiros intrépidos, que, em suas frágeis embarcações, empreendiam expedições belicosas, que os levavam a grandes distancias. Suas amplas cabanas, destinadas para um grande numero de famílias, estavam reunidas em aldeias; estas eram fortificadas por meio de paliçadas, nas pontas das quais costumavam pôr as cabeças dos seus inimigos mortos em combate. Dormiam em redes e alimentavam-se não só do resultado de sua caça e pescaria, mas também dos produtos que lhes forneciam suas plantações. O canibalismo não era usual entre eles.

Os Guayanãs (Guaianases)

Os Guayanãs de outro lado, consoante Gabriel Soares, praticavam o canibalismo e tratavam seus prisioneiros com brandura. Eles não dormiam em redes, mas sobre o chão e aqueles que viviam nos campos, escavavam o chão, para assim fazer suas casas; não tinham plantações. Os Guayanãs não eram muito belicosos e facilmente entravam em boas relações com os portugueses, os quais entretanto não podiam esperar bons serviços da parte d’aqueles que aprisionavam para que lhes servissem de escravos.

(*) No manuscrito de Knivet (N.° 23) de 1591 da biblioteca do Dr. Eduardo Prado encontra-se, á pagina 125, um capitulo dedicado aos Índios:

Os Wayanasses vivem a 18 légoas ao Sul do Rio de Januário num lugar chamado pelos portuguezes «Ilha Grande». Estes anthropophagos são de apparencia toleravelmente boa. Elles talham seu corpo e não se vangloriam tanto de comerem carne humana, como os Tomayes, os Tomymenos e outros cannibaes o fazem. As mulheres são gordas de corpo e muito feias, mas ellas tem muito boas caras. As mulheres desta região pintam seu corpo e suas faces com uma cousa que se chama em sua lingua «Vrucu», que cresce numa vagem como uma fava, e de que se faz uma tinta vermelha como óca ; é por causa desta côr que parecem tão feias. Os cabellos, tanto dos homens como das mulheres, crescem muito longos, dos dous lados; porem na coroa elles os cortam como os frades franciscanos. Estes cannibaes deitam-se em redes feitas da casca de arvores e também quando viajam pelo sertão carregam ás costas, em pequenas redes, todas as provisões que têm. Nunca lhes falta o tabaco, que elles o estimam muito mais do que qualquer cousa que têm em seu paiz, e com elle curam também as suas chagas quando estão feridos. Quando os portuguezes têm precisão de escravos, elles vem á Ilha Grande e ahi têm certeza de encontrar com alguns dos Wayanasses a pescar. Então elles lhes mostram facas, pérolas e vidros e lhes dizem que mercadorias querem; e logo elles irão a um lugar chamado em sua lingua « lawarapipo *, que é sua cidade mais importante e dahi trazem tudo aquillo que julgam poder vender na costa, e tão barato como puderdes, podeis comprar d’elles.

Os Carijós

Índios Carijó (Guarani), os habitantes nativos. Gravura de Ulrich Schmidl – 1559

Na sua cultura os Carijós assemelhavam-se muito aos Tupis, mas o seu caráter era mais brando; eles não eram canibais ou então abandonaram muito cedo este costume, pelo menos no Brasil meridional. No Paraguai, entretanto, Ulrich Schmidel ainda encontrou-os entregues ao canibalismo. Era quanto que os Tupinambás andavam nus, os Carijós usavam capas e as mulheres vestiam aventais de algodão. O ornamento característico dos Carijós é o tembetá, feito de resina e que colocavam na perfuração do lábio inferior.

Os Carijós tinham vasta distribuição no Brasil meridional ; cada família ocupava a sua cabana própria. Antes do descobrimento da América do Sul parece que tinham o seu domicilio estendido mais para o Sul. O Sr. Lafone Quevedo (N.” 26) indica que a língua dos Guaranis se falava no tempo do descobrimento só entre a população das ilhas, situadas na embocadura do Rio da Prata e nas adjacências da margem setentrional deste rio. É evidente que os poucos Guaranis representavam o resto d’uma grande massa de população, que foi destruída ou expulsa por outras tribos.

Os Tupiniquins

Ataque de Portugueses e Tupiniquins às Cabanas Tupinambás, Theodor de Bry (1592)

Os diversos autores não estão de acordo com relação ás diferentes tribos indígenas e Gabriel Soares não dá informações detalhadas quanto aos Tupiniquins. Hans Staden, entretanto, nos informa que os Tupiniquins, que viviam em boas relações com os portugueses, ocupavam o litoral numa extensão de 40 léguas e a cerca de 80 léguas para o interior; em sua carta de 1565 (Rev. Inst. Hist., Tom. IH, Rio de Janeiro 1841 (2.° ed. 1860) p. 250) o Padre José de Anchieta menciona também os Tupiniquins de S. Vicente.

Cayapós e Puris

Retratos de índios puris feitos pelo pintor alemão Johann Moritz Rugendas no século XIX

Algumas tribos do Brasil central, que agora não estão mais representadas no Estado de São Paulo, contudo outrora habitavam este território. Von Martins indica (N.° 35) que os Cayapós do Mato Grosso antigamente viviam também no Estado de S. Paulo, nas margens inferiores do Rio Tietê e entre este rio e o Rio Paranahyba. Do outro lado do Estado, os Puris, domiciliados nos Estados de Minas Gerais e Espirito Santo, viviam então também na região setentrional do Estado de S. Paulo, onde em 1800, São João de Queluz (*) foi estabelecido como aldeamento destes Índios. Segundo frei Gaspar da Madre de Deus o domicilio dos Jeronimes e Puris no Estado de S. Paulo ficava entre Guaratinguetá e Taubaté. O leitor compreenderá mais facilmente a distribuição atual e antiga dos índios do Estado de S. Paulo comparando os dois mapas que indicam a distribuição destes Índios, tanto em nossos dias, como no tempo do descobrimento.

Goyatacaz, Carajás, Tamoyos, Tremembés, Itanhaens, Guanaos

Hans Staden enumera como inimigos dos Tupinambás os Goyatacaz ao Norte e os Carajás ao Sul. Parece por conseguinte que os Carajás ocupavam antigamente uma parte do Noroeste do Estado de S. Paulo. Os Tamoyos, que viviam entre o Rio de Janeiro e Angra dos Reis, ligavam-se ocasionalmente com os Tupinambás e alguns autores creem mesmo que estes dois povos fossem idênticos.

Por minha parte, distinguindo-os, estou de acordo com Gabriel Soares e Hans Staden; este ultimo autor diz expressamente que os índios da costa setentrional de S. Paulo, entre os quais viveu, chamavam-se a si mesmos Tupinambás.

Não posso achar informações exatas quanto aos Tremembés da família Tapuya ; parece que viviam nas
partes setentrionais do Estado, onde ainda diversas localidades têm a mesma denominação.

Uma outra tribo, a respeito da qual só temos informações incompletas, são os Itanhaens, que habitam a costa de São Paulo, ao Sul de S. Vicente em Itanhaen, e aos quais se refere Machado de Oliveira (N.° 30). Parece que eram da familia Guayanã e são talvez idênticos com os Camés da costa meridional de S. Paulo; von Martins os menciona. Ainda não pude verificar se existem restos destes Camés na zona litoral do Sul de S. Paulo, onde o nome dos Camés agora é desconhecido.

Com referencia aos Guanaos já emiti em outro lugar minha opinião (N.° 16). Este povo, um membro
da família Guarani, viveu na parte setentrional do Rio Grande do Sul e nas adjacências de Santa Catarina. Gay nos comunica (N.” 14) uma carta do ano de 1683 do padre Garcia, que visitou esta região.

Os Tamoyos eram relacionados com os Tupinambás, como o eram também os Temininos, domiciliados na costa, entre Angra dos Reis e o Rio de Janeiro. É’ esta a razão porque por vezes, como já disse
acima, encontramos os Tamoyos mencionados na historia de São Paulo, quando esperaríamos encontrar o nome dos Tupinambás.

Pedro Taques de Almeida (N.° 54) diz por exemplo, que os portugueses, tendo fundado em 1531
a Vila de S. Vicente, durante três anos estavam expostos aos combates com os Carijós, Tamoyos e Guayanãs. Assim, no ano de 1562 a cidade de S. Paulo, fundada em 1560, foi atacada por diversos Índios entre os quais encontramos mencionado o nome dos Tamoyos, em combinação com os Tremembés, que se diz serem Tapuias, e também com uma parte dos Guayanãs. A , historia deste episodio foi bem descrita por Machado de Oliveira (N.° 30).

Hans Staden emprega só o nome de Tupinambás para estes Índios tupis da costa setentrional de São
Paulo ; indica que os inimigos deles eram os Goyatacazes ao Norte e os Carajás a Oeste. Parece portanto que estes índios, que em nossos dias estão restringidos quasi só ao Goiás, e que antigamente se estendiam para os dois lados até Minas Gerais e Mato Grosso, outrora ocupavam o Noroeste do Estado de S. Paulo. Em geral os Tupinambás e as tribos aliadas eram, nos tempos da conquista, os confederados dos franceses e inimigos dos portugueses, enquanto que os Guayanãs e Tupiniquins eram amigos destes.

Como estas duas nações então viviam em parte conjuntamente em S. Paulo e como a língua adotada
pelos portugueses era o tupi, não podemos duvidar de que os Guayanãs devem ter tido algum conhecimento da linguagem tupi e provavelmente também seus nomes, adotados pelos portugueses, provêm deste idioma. É por conseguinte difícil de dizer se Tibiriçá e outros caciques de Piratininga pertenceram a esta ou aquela nação.

Sabemos, entretanto, que alguns anos depois da fundação de S. Paulo os Guayanãs abandonaram esta cidade e se estabeleceram nas aldeias de S. Miguel e Pinheiros, a pouca distância. Isso parece indicar que os Tupiniquins eram o elemento dominante, o que estaria de acordo com a índole pacifica dos Guayanãs de S. Paulo na grande região dos campos abertos. Uma de suas tribos é conhecida pelo nome de Camés, palavra que significa na linguagem dos Caingangs « covardes ». Que os Tupiniquins eram o elemento predominante em Piratininga ( Sào Paulo ) prova-se pelas urnas funerárias encontradas na rua de Piratininga da atual cidade de São Paulo ( Braz ); estas urnas estão guardadas no Museu Paulista.

Também em vista disso não duvido que os chefes acima mencionados destes Índios de Piratininga pertenceram á nação dos Tupiniquins, assunto do qual o Dr, Washington Luis se ocupou na censo de Julho de 1903 do Instituto Histórico de São Paulo. Os antigos escritores não dão informações sobre a nacionalidade destes chefes e a afirmação de Frei Gaspar da Madre de Deus (N.° 32), de que Tibiriçá fora Guayanã é portanto sem valor.

Procurei coligir todas as indicações que se referem á distribuição tanto antiga como atual dos indígenas de São Paulo e dos Estados adjacentes. Segundo estas indicações organizei dois mapas, que acompanham o presente estudo. A comparação destes dois mapas leva-nos aos seguintes resultados, interessantes:

1) A grande diminuição do elemento indígena, devido em parte ao seu extermínio, em parte á sua fusão com o elemento rural imigrado;

2) O desaparecimento completo das tribos tupis;

3) A conservação de unia parte dos antigos Guaranis e Carijós – no Brasil meridional e no Paraguai,
onde agora são denominados Guaranis, Ares e Cayuás;

4) A conservação de uma grande parte dos antigos Guayanãs no Brasil meridional e no Paraguai, principalmente no sertão da bacia do Rio Paraguai.

5) O desaparecimento, do Estado de S. Paulo, de certas tribos do Brasil central, como por exemplo dos
Cayapós, Puris e Carajás, os quais todos antigamente ocupavam uma área muito mais extensa.

O que dificulta o estudo comparativo dos Índios do Brasil é o estado incompleto de nossos conhecimentos gerais da etnografia do Brasil. Para alguns dos grupos setentrionais de Índios, como os Caraïbes e os NuAruaks, os estudos de Ehrenreich e von den Steinen nos trouxeram a elucidação, mas estes grupos nunca estiveram representados no Brasil meridional

E a definição exata do que sejam os Jês e os Crens de Martins, que agora nos oferece a maior dificuldade.

Ehrenreich, entretanto, separa os Puris e tribos aliadas dos Jês, baseado em razões linguísticas, mas eu não posso concordar com esta sua opinião. As diferenças linguísticas entre os diversos membros da família dos Jês são muito grandes, e mesmo entre o grupo meridional dos Jês se encontram differenças muito evidentes, tais como as que há entre os Caingangs e os Ingains. Devemos relembrar que todas as dissemelhanças indicadas não se baseiam exclusivamente na diversidade dos vocábulos. Minha experiência quanto aos Caingangs sugeriram-me a opinião de que as diferenças gramaticais entre as línguas dos Tupis e dos Caingangs não são essenciais. De outro lado Ehrenreich nos comunica alguns traços característicos dos Jês, dos quais, entretanto, só dois são comuns ás diversas tribos dos Jês, a saber: a falta de redes e o pouco desenvolvimento da navegação.

Ehrenreich menciona como característicos aos Jês os discos de madeira usados como ornamentos nas perfurações dos beiços e das orelhas; mas os Caingangs e Chavantes não conhecem este uso e o mesmo se dá com relação ás flechas com pontas de taquara. Entre os Índios do Brasil meridional não se encontram flechas com pontas de taquara. As flechas dos Chavantes têm pontas farpadas e os Caingangs usam, além destas, de outras com pontas de osso. Um exame minucioso dos caracteres distintivos não nos dá, portanto, uma base para a divisão dos Tapuyas em Jês e «Não-Jês». Julgo
mesmo impossível, por enquanto, podermos proceder a uma classificação correta dos Índios Tapuyas no Brasil meridional e central. Mas o que já podemos reconhecer, com Martins e Ehrenreich, é que os Carajás representam um grupo independente de Índios. Quanto ao Estado de São Paulo esta questão é de pouca importância, pois que os Índios deste Estado pertencem a duas famílias: á dos Tupis e dos Tapuyas, como chamaremos os Jês de Ehrenreich; frisamos, contudo, que estes Gês não são idênticos com o grupo de índios assim denominado por Martins. Os Tapuyas como aqui os compreendemos, são quase idênticos com os de C. von den Steinen (N.°^ 51 e 52), com a diferença que von den Steinen excluí os Puris dos seus Tapuyas.

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