Política

Carta ao amigo Charlie

Mas, Charlie. As pessoas mudam. O poder envaidece e é afrodisíaco.

*Qualquer semelhança com pessoas ou fatos, será mera coincidência…” 

Certamente, por ocasião do destino, não nos veremos mais. Mas queria que soubesse que estava certo quando o encontrei no posto de gasolina, possesso.

Já previa o final trágico do governo que por opção (e pressão) resolvemos defender naquele ano de 2016. Você e seu jeito ranzinza, fumante, inquieto, me questionava o porque o projeto tinha sido deixado de lado. Eu? Ignorei, estava de saco cheio das reclamações…

Aquele foi nosso último encontro. Naquele final de semana o destino o levou. Sempre foi muito difícil ter essa noção e criticidade estando dentro, envolvido, mergulhado. Nunca consegui fazer uma tarefa sem me envolver de corpo e alma, o que tem levado-me a muitas críticas em casa, pois muitas das vezes acabo deixando minha esposa e filhos em segundo plano. 

Logo em 2017, pensei que iríamos mudar o mundo. Os “críticos”, todos eles, em prol de um projeto. A imprensa em processo de desconstrução, o convite para virar “bocão” resolveria minha vida, mas confesso que queria mudar o governo e ver a cidade que escolhi para viver, evoluir… 

Infelizmente esse projeto foi uma ilusão da minha cabeça. Na verdade Charlie, o prefeito, o qual defendemos incansavelmente, no meu caso até o dia 20 de janeiro de 2020, nunca possuiu um grupo. O grupo dele era de três, quatro pessoas da sua confiança.

Para conseguir uma sustentação intelectual se cercou de vários membros das três lojas maçônicas que passaram a disputar a “versão dos fatos” na mente do prefeito. E ele, como sabemos, quando achava que tinha certeza de algo não ouvia os argumentos, a elite intelectual era burra e incapacitada, em sua maioria…

O resto foi um loteamento clássico da máquina pública com os vereadores, muitos deles sub representavam o povo e foram eleitos no “Efeito Bolsonaro” e no carisma do “sorriso largo”.

Tava tudo errado, você dizia. Eu? Empenhado em mudar a lastimável condição que deixaram a Fundação de Saúde cujo responsável voltará para ser presidente da pasta nesse novo governo. Acredita?

Fui ameaçado, xingado, criticado, fali, passei horas traçando estratégias. Consegui tirar do papel o projeto para zerar as filas de consultas em unidades móveis na Visconde do Rio Claro. Tive que aprender a reconhecer o valor dos servidores públicos abnegados que ganham mal e trabalham muito. Sempre lembro da Rosa, levava o departamento nas costas, sem ter cargo…

Mas, Charlie. As pessoas mudam. O poder envaidece e é afrodisíaco. Em determinado momento a busca por novas companheiras era o interesse de muitos integrantes do alto escalão, adquirir um carro novo ou humilhar quem era contra o governo. Perdeu-se muito tempo com isso. Não se fez um planejamento estratégico. Deram a chave do cofre para alguém que dependia de uma consultora externa para mexer no orçamento, o que engessou toda a máquina.

Era uma desconfiança do dono da chave com os demais secretários. O que levou a uma briga interna. O grupo do dono do cofre e os demais. Alguns se aliaram a ele e passaram a operar a máquina. Outros, declaram guerra. E teve xingos, e teve troca de gentilezas e até brigas dentro dos gabinetes. 

O prefeito? Preocupado em tirar foto, com as redes sociais, com a publicidade e de estar bem com todos os figurões. O circo pegava fogo nas entranhas do Poder.

A disputa por quem iria iludir o prefeito levou a outro erro primário. Passaram a afastar as pessoas que poderiam contar a verdade ao prefeito. Eu, Charlie, fui um deles. Fiquei isolado por quase oito meses…

Resolvi estudar, estudar, trabalhar, trabalhar para confeccionar um Estatuto aos trabalhadores da Saúde. No dia que terminei, o prefeito apareceu no meu gabinete e me exonerou a pedido do secretário da Saúde.

Você sabe Charlie, o medo era que levantássemos uma oposição. E fui levado para o olho do furacão: Central de Compras. Queriam, porque queriam, me ver sambar apertado…

Estava refém da situação, paralisei minha carreira de jornalista para virar vidraça; não tinha para onde correr. E, por incrível que pareça, ainda acreditava no nosso projeto…

Durante as eleições de 2018, o racha interno entre o grupo do deputado e o do presidente da Câmara acentuou a briga interna velada. Mas o presidente da Câmara passou a criar um exército que lutasse por ele no alto escalão de várias secretarias. Isso, paulatinamente, desmoronou a autoridade do prefeito. Então, de um lado, “os comandantes do cofre” que também administravam a Central de Compras, os sentinelas do presidente da Câmara e do outro o resto.

Charlie, passei a não mais encher o prefeito de problemas. Por mais que gritasse, falasse, pedisse para seu grupo conversar com ele, ele não ouvia. Ele estava preocupado com a maquiagem, com o corte do mato, com a iluminação, com as sarjetas, com o ar condicionado da UPA e não enxergava a briga de foice que o cercava…

Pois bem, Charlie, fui estudar para administrar e fiscalizar contratos. A Central estava largada, contratos vencidos, processos incompletos, toda a responsabilidade sobre o ombro de um eventual e duas estagiárias, acredite se quiser. Passei a regularizar tudo, aluguéis, contratos, mas sabia que aquilo seria a sentença de morte do prefeito.

Avisei pessoas próximas por três vezes e tentei explicar para o prefeito por duas vezes dentro do veículo oficial. Ele? Penteava o cabelo e me perguntava sobre o que ele julgava importante. 

O governo perdeu a unidade que nunca teve. Existiam os comissionados do grupinho do procurador e finanças, o grupo do presidente da Câmara, e o resto.

Essa falta de unidade arrastou o processo de reforma administrativa para o ano eleitoral. Era sabido que o processo era para ser realizado desde 2017, mas a disputa por poder interno armou essa bomba para o ano eleitoral de 2020, um erro fatal…

Numa tentativa de ajeitar as coisas, nomearam outro chefe de gabinete da Prefeitura, do grupo original do prefeito. E ele me procurou para indicar a Secretária da Saúde, o que fiz. Voltei para a Saúde para tentar eliminar os super salários dos médicos que ganhavam acima dos R$ 100 mil. O que fiz, tive que mexer com férias, licenças para conseguir ter recursos para pagar a folha de pagamento de outubro, novembro e dezembro de 2019. Enquanto a briga acontecia não arrumaram o gap do orçamento da Saúde que não teve rubricas suficientes até o dia que fiquei lá…

Tive que mexer com médicos, escalas, sindicato com interesses eleitorais, e a briga interna do governo (graças a Deus a secretária sempre me deu suporte e ensinamento). Acho que saí com uma fama ruim de lá, Charlie. Mas não me sujei, intacto…

No restante de 2019, o combate interno era pela mente do Chefe do Gabinete. Isso levou a uma nova acomodação, mas a armadilha já estava feita. E outro grupo foi surgindo os ressentidos ligados ao deputado.

Passamos todo esse período reféns, sendo escutados, tão somente, pelo vice-prefeito que também foi escanteado pelos dois grupos de comando. 

O prefeito achava, naquela altura, que era um problema da pessoa não se impor e não enxergava a armadilha que o consumiria e o levaria a um fim melancólico. Éramos um novo grupo: “os escanteados”. Terminamos as obras, enfrentamos os problemas com auxílio do Tribunal de Contas, Ministério Público Estadual e Federal, o planejamento de 12 meses, conclui em quatro.

Charlie, até que o presidente da Câmara seduziu e cooptou uma diretora do nosso alto escalão que passou a sabotar os projetos por debaixo dos panos. Ao perceber isso, e com a certeza que já estávamos jogando o jogo do exército do presidente da Câmara, o grupo da chave do cofre passou a exigir que as compras da autarquia fundacional passasse a ser feita pela Central de Compras da Prefeitura.

Essa interferência não foi aceita e resolvemos sair. Sai sem comunicar o prefeito. Na minha cabeça, ele tinha feito a escolha dele. 

Charlie, acho que você também não aguentaria até o final. Fui covarde, saí antes: 20 de janeiro. Saí frustrado, falido, humilhado, e certo que o governo estava prestes a implodir. 

Talvez tenha culpa, insisti para ele ser candidato a prefeito. Levei ele a São Paulo para conseguir legenda para o Executivo, pois ele não teria. E, vi, ele saindo escoltado pela polícia. Um dia triste, um dia que me consumiu…

Não fiz nada para evitar isso, esse foi meu erro. Por egoísmo não quis, estava dilacerado, cansado e não quis alertá-lo mais uma vez. Saí, porém, de cabeça erguida…

Eh! Meu amigo Charlie
Eh! Meu amigo
Charlie Brown, Charlie Brown…
Eh! Meu amigo Charlie
Eh! Meu amigo
Charlie Brown, Charlie Brown…


Se você quiser
Vou lhe mostrar
A nossa São Paulo
Terra da garôa
Se você quiser
Vou lhe mostrar
Bahia de Caetano
Nossa gente boa
Se você quiser
Vou lhe mostrar
A lebre mais bonita
Do Imperial
Se você quiser
Vou lhe mostrar
Meu Rio de Janeiro
E nosso carnaval
Charlie!


Eh! Meu amigo Charlie
Eh! Meu amigo
Charlie Brown, Charlie Brown…
Eh! Meu amigo Charlie
Eh! Meu amigo
Charlie Brown, Charlie Brown…


Se você quiser
Vou lhe mostrar
Vinícius de Moraes
E o som de Jorge Ben
Se você quiser
Vou lhe mostrar
Torcida do Flamengo
Coisa igual não tem
Se você quiser
Vou lhe mostrar
Luiz Gonzaga
Rei do meu baião
Se você quiser
Vou lhe mostrar
Brasil de ponta a ponta
Do meu coração
Oh Oh Charlie!


Eh! Meu amigo Charlie
Eh! Meu amigo
Charlie Brown, Charlie Brown…
Eh! Meu amigo Charlie
Eh! Meu amigo
Charlie Brown, Charlie Brown…


Se você quiser
Vou lhe mostrar
Vinícius de Moraes
E o som de Jorge Ben
Se você quiser
Vou lhe mostrar
Torcida do Flamengo
Coisa igual não tem
Se você quiser
Vou lhe mostrar
Luiz Gonzaga
Rei do meu baião
Se você quiser
Vou lhe mostrar
Brasil de ponta a ponta
Do meu coração
Oh Charlie!

Eh! Meu amigo Charlie
Eh! Meu amigo
Charlie Brown, Charlie Brown…

3 comentários

  1. Meu querido amigo. Acabei de ler seu artigo “Carta ao amigo. Charlie”.
    Ainda não consegui saber quem é Charlie.
    Porém, conheci mais um pouco de um amigo muito querido. Conhecimento esse que não me surpreendeu em nada, apenas reforçou aquilo que já sabia. Caráter, moral, índole, todo esse conjunto perfeito. E foi todo esse conjunto que me fez admira-lo e me orgulhar de nossa amizade.
    E descobri nesse artigo, que você amigo (como me orgulho de poder chama-lo de amigo) tem mais um dom, o da paciência. Fosse eu em seu lugar teria chutado balde em janeiro de 2017.
    Saiba que eu estarei sempre ao seu lado em qualquer empreitada de caráter político.
    Um beijo no seu coração.

    Curtido por 1 pessoa

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