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COVID-19: Não há comprovação da eficácia no uso de ivermectina e medicamento seria veneno em dose necessária para inibir coronavírus

Além de não ter comprovação científica, uso de ivermectina pode "envenenar" paciente já que é um medicamento neurotóxico
Foto/Divulgação

A disputa pelo discurso polarizado entre supostos tratamentos contra o COVID-19 tem levado milhares de brasileiros a se automedicarem baseando-se em “fake news” e declarações sem embasamento científico como é o caso do uso indiscriminado da Ivermectina, fármaco usado no tratamento de vários tipos de infestações por parasitas. Entre elas estão a infestação por piolhos, sarna, oncocercose, estrongiloidíase, tricuríase, ascaridíase e filaríase linfática.

Alguns médicos e até o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) tem encorajado o uso de medicamentos para o combate da doença. Na terça-feira (5/1), por exemplo, Bolsonaro voltou a defender o uso precoce de medicamentos no combate à COVID-19. 

O efeito prático é que a venda de ivermectina no mercado farmacêutico explodiu na pandemia e cresceu 466% no acumulado de 2020 até novembro, na comparação com o mesmo período de 2019. O dado é da IQVIA, uma das maiores consultorias de informações sobre saúde, e foi obtido pela coluna por indústrias do setor.

O detalhe é que não há comprovação científica. Na tentativa de elucidar o tema, o site buscou por artigos científicos e pesquisas realizadas que apontam ou não para a eficácia do medicamento no combate ao COVID-19.

Em abril de 2020, uma revisão sistemática rápida não identificava nenhum estudo clínico disponível que avaliasse eficácia e segurança da ivermectina no tratamento de COVID-19. A revisão foi produzida por meio de uma ação colaborativa entre a Unidade de Avaliação de Tecnologias em Saúde do Hospital Alemão Oswaldo Cruz (UATSHAOC) e Núcleo de Avaliação de Tecnologias em Saúde do Hospital Sírio-Libanês (NATS-HSL).

O artigo pode ser lido aqui

Em maio, uma nova versão da revisão voltava a apontar:

Até o momento não se sabe se a eficácia da ivermectina “in vitro” também está presente in vivo. Portanto, o uso da ivermectina no tratamento da Covid-19 permanece não comprovado e depende dos resultados dos ensaios clínicos em andamento para que haja avanço no reconhecimento de sua eficácia e segurança no tratamento da COVID-19.

Marra LP, Oliveira Jr HA, Medeiros FC, Brito GV, Matuoka JY, Parreira PCL, Bagattini
AM, Pachito DV, Riera R. Ivermectina para covid-19. Revisão sistemática rápida. Revisão sistemática
rápida. Disponível em: https://oxfordbrazilebm.com/index.php/2020/05/07/ivermectina-para-otratamento-de-pacientes-com-covid-19-revisao-sistematica-rapida2/ . Acessado em 08, jan, 2021.

O artigo pode ser lido aqui

Ainda em maio, a pesquisa “Terapia medicamentosa para infecções por coronavírus em humanos: revisão sistemática rápida”, realizada por pesquisadores brasileiros nas bases de dados  Revisão sistemática rápida com buscas nas bases MEDLINE, EMBASE, Cochrane, BVS, Global Index Medicus, Medrix, bioRxiv, Clinicaltrials.gov e International Clinical Trials Registry Platform, apontou que:

Apesar da variedade de opções medicamentosas identificadas, as evidências científicas ainda são preliminares e de baixa qualidade metodológica. Não há eficácia e segurança comprovada de nenhum medicamento para infecções por coronavírus em humanos. Assim, faz-se necessária a execução de ensaios clínicos randomizados, controlados, com tempo de acompanhamento adequado e com os métodos divulgados e sujeitos à revisão científica por pares. Ainda, há dezenas de estudos clínicos em andamento avaliando eficácia e segurança de medicamentos no mundo. Recomenda-se atualização periódica da presente revisão para monitoramento das evidências científicas à medida que se tornam disponíveis.

KRC Andrade, VKS Carvalho, CM Farinasso, AA Lima, RB Silva e VK Wachira participaram do planejamento, buscas, extração, seleção e avaliação da qualidade dos estudos, análise dos dados, redação e revisão do manuscrito. HC Capucho, PM Souza, T Vanni, DF Rêgo e CG Sachetti participaram da revisão crítica do manuscrito.

Em julho, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) ressaltou que não existem estudos publicados conclusivos que comprovem o uso desse medicamento para o tratamento da Covid-19, mas que também não existem estudos que refutem esse uso. Além disso, destacou que o uso do medicamento para indicações diferentes das apoiadas em bula é de escolha e responsabilidade do médico prescritor.

Em outubro, o estudo “Medicamentos e tratamentos para a Covid-19”, do Centro de Pesquisa e Inovação em Biodiversidade e Fármacos (CIBFar), evidenciava que:

Apesar dos extraordinários esforços da comunidade científica em todo o mundo, o desenvolvimento de novos medicamentos é um processo complexo e os resultados levam tempo para aparecer. Um longo caminho foi percorrido na busca do reposicionamento de fármacos para a Covid-19, mas nenhum novo tratamento específico foi aprovado.

FERREIRA & ANDRICOPULO (2020, p. 22)

Em dezembro, a Sociedade Brasileira de Infectologia enviou a procurador 44 estudos que mostram ineficácia de remédios contra Covid-19:

Em dados atualizados no dia 7 de janeiro de 2021, a Organização Pan Americana da Saúde (OPAS) afirmou que:

Todo país é soberano para decidir sobre seus protocolos clínicos de uso de medicamentos. Embora a hidroxicloroquina e a cloroquina sejam produtos licenciados para o tratamento de outras doenças – respectivamente, doenças autoimunes e malária –, não há evidência científica até o momento de que esses medicamentos sejam eficazes e seguros no tratamento da COVID-19.

OPAS, 2021.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) também “aconselham fortemente contra o uso de ivermectina para quaisquer outros propósitos diferentes daqueles para os quais seu uso está devidamente autorizado”.

A OPAS compilou um banco de dados de evidências sobre potenciais tratamentos para COVID-19, e fez uma revisão rápida de todos os estudos realizados em humanos, in vitro (laboratórios) ou in vivo (clínicos), publicados de janeiro a maio de 2020. A revisão concluiu que os estudos sobre ivermectina tinham um alto risco de viés, muito pouca certeza de evidências, e as evidências existentes eram insuficientes para se chegar a uma conclusão sobre benefícios e danos. Apesar da efetividade da ivermectina estar sendo avaliada atualmente em diversos ensaios clínicos randomizados, deve-se enfatizar que a OMS excluiu a ivermectina do Estudo Solidariedade para tratamentos da COVID-19, uma iniciativa co-patrocinada, para encontrar um tratamento efetivo para COVID-19.

OPAS, 2021

 A Unicamp também divulgou a notícia “Ivermectina seria veneno em dose necessária para inibir coronavírus, alerta professor do Instituto de Química” que aponta que estudo in vitro que apontou ação do antiparasitário contra o novo coronavírus sugere que, para efeitos semelhantes em pessoas, seria necessária a ingestão de uma dose 17 vezes maior que a dose máxima permitida por dia para seres humanos.

Como a ivermectina é um medicamento neurotóxico, significa que, se hipoteticamente a mesma dose fosse ingerida, funcionaria como um veneno que pode causar sérios danos ao cérebro e aos nervos. Em doses baixas o medicamento não tem comprovado efeito benéfico nenhum, a não ser para o que já é recomendado.

As informações são do professor Luiz Carlos Dias, do Instituto de Química da Unicamp, nosso entrevistado nos episódios “Vale à pena investir na vacina de Oxford?” e “Dexametasona é a cura para a Covid-19?”. Nós selecionamos aqui o trecho sobre a ivermectina que foi ao ar no podcast do programa sobre a vacina. O Conselho Regional de Farmácia (CRF), do estado de São Paulo emitiu a seguinte nota técnica sobre o uso da ivermectina: leia

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