O início do Método Camões

Após um conselho de uma doutoranda, resolvi postar as minhas reflexões sobre as peripécias desse método que tenho desenvolvido nas escolas onde leciono. E, por mais que peça aos alunos para fazerem estes textos, percebo como é difícil escrevê-los. Para introduzir o nobre leitor a esta reflexão queria dizer que vivo três períodos distintos: a aula online [devido a pandemia], a aula com pequenos grupos semanais, e agora, aula com a classe lotada.

Esse percurso, do modo como ele aconteceu em minha existência, já que iniciei dando aulas online, pois as únicas aulas presenciais que tinha ministrado foram três aulas numa sexta-feira, 13, de março de 2020, ou seja, minutos antes de decretarem a compulsoriedade do isolamento social.

É um processo de reconstrução diária. Como é difícil, mas como é primordial ter uma caixa de ferramenta com estratégias prontas. A mesma estratégia pode funcionar tão bem em uma sala e ser completamente ineficaz em outra, e quanto é frustrante quando isso acontece. Outra coisa que merece nota é o fato de que as escolas (obivamente, só falo das quais vivencio) ainda não estão praparadas para utilizar os chamados kits de internet, seja por falta de conexão ou por falta de entendimento.

Muitos colegas insistem em manter o paradigma que foi soterrado pré-pandemia, querem – a todo custo – ressuscistar a escola anterior a fórceps, como se nada tivesse acontecido. Cheguei a presenciar o pedido absurdo de que os alunos não deveriam usar celular já que as aulas presenciais voltaram…

Tento ficar inerte a tais ataques, ironias e desdém das práticas que tenho realizado por convicção, para muitos sou um idealista perdendo tempo já que nada o que fizer será forte suficiente para mudar a lógica vigente. E cada nova empreitada frustrada é um pedaço dessa convicção que é enterrada em meu quintal de ideias. Por este motivo acredito que não possa ficar muito tempo como professor, pois logo mais estarei indo a escola por obrigação, infeliz e desvalorizado. Graças a Deus, tal desanimo ainda não me acertou.

Sinto-me como um rei, dentro da sala de aula. É nítido a microfísica do poder, para lembrar de Foucalt, professores são autoridades, reis, o representante de Deus na terra, os alunos os oprimidos. E isso levanta uma questão muito violenta, até que ponto os alunos com desinteresse, descompromisso, mal educados, estão se voltando contra essa forma de domínio/opressão? Até que ponto as escolas – funcionando como linhas de produção, podem continuar desconfigurando as potencialidades heterogêneas de cada um? Até que ponto quero educar um aluno passivo, que aceite tudo, que engula as regras de jogo sem reclamar? Eis a questão…

Já vivenciei muitas coisas, deveria ter escrito antes, muitas das práticas já foram esquecidas. Para ser fiel ao propósito quero falar do “Método Camões”. Foi criado como um jornal em 2020 para facilitar minha didática e dar uma alternativa as aulas chatas exposicionais pela internet. Funcionou. Depois criei a Sociedade dos Poetas Uivantes (SPU) para estimular a escrita colaborativa e a leitura pelo WhatsApp, acredito que também funcionou. Logo por interferência da minha genitora – doutora em Educação – adaptei o que estava fazendo com o chamado Método Freinet. E depois ao Multiletramento de Roxanne Rojo, o qual tive acesso em um curso online proferido pelo MEC. Foi esse curso que utilizei para não passar vergonha ao dar aula, já que nunca tinha ministrado aulas anteriormente.

Eis o primeiro Frankstein: Jornal do Camões + Sociedade dos Poetas Uivantes. Fiz dos alunos minhas cobaias…

Produzimos reportagens e a primeira revista online e impressa “Revista do Camões”.

Em 2021, atribui mais aulas no Ensino Médio e aprimorei o que já estava fazendo com mais três estações: Uivantes Records, Cia Teatro I-Juca Pirama, Agência de Publicidade Lima Barreto – tais plataformas foram criadas ainda em 2020, mas entraram em plena operação em aulas virtuais com o Ensino Médio noturno da Escola Estadual Zita de Godoy Camargo, após pedido do diretor para ampliar o projeto as alunos da escola.

Ao mesmo tempo, devido ao meu primeiro aluno desperto Kauhan Sabino, criou-se um jornal Quincas Borba, em uma escola a qual não ministrava aulas “Marciano de Toledo Piza”. Logo depois, meu filho criou o jornal “Darwin” na “Heloisa Marasca Lemenhe”, e o jornal Clarice Lispector na Escola januário Sylvio Pezzotti (já que tinha levado o Camões para a escola Zita de Godoy Camargo) e assim estava criada a rede Camões, que também chegou a ter o jornal Drummond (da Escola José Cardoso, mas que nunca foi operacionalizado).

Com isso, busquei apoio a passei a publicar textos de um vasto número de alunos colunistas no Diário do Rio Claro com a “Coluna do Camões”, no RC 8:32 com a “Coluna Quincas Borba”, e no CAN – Cidade Azul Notícias com a “Coluna Clarice Lispector”. Essa ampliação foi muita rápida e dependia da insistência dos alunos para que funcionasse, já que não estava dando conta. Muitas reuniões semanais, muitas entrevistas e a magnifíca segunda edição da Revista do Camões com a entrevista de capa com o filósofo Mario Sérgio Cortella, entrevista agendada, marcada e roterizada pelo aluno Kauhan Sabino e a Rede Camões. Além de entrevistas com Emílio Blablalogia, Olívio Jukupê, Maria Lúcia Karam, Reinaldo José Lopes, dentre outras.

Nas minhas aulas verdadeiras, obriguei os alunos a participarem dos projetos [hoje já não sei se foi o modo certo], cada um escolhia uma das cinco plataformas: Jornal do Camões, Uivantes Records, Agência Lima Barreto, Cia I-Juca Pirama e Sociedade dos Poetas Uivantes. Falarei mais de cada um dos projetos nas próximas reflexões. Por fim, adotei a utilização dos sites dos projetos para que os alunos passassem a escrever suas reflexões sobre o processo de aprendizagem, conforme aprendi no Mestrado em Gestão da Clínica, na UFSCar, que avalaiva o mestrando com os chamados “Portfólios Reflexivos”. Acredito que foi um acerto, mas trouxe novos desafios.

Para finalizar, por mais que tenho nadado contra a maré, acredito que tenho aprimorado tal método (que não sei se é um método) e minha entrada no Gesteld/Unesp tem contribuído e trazido novos dilemas. É preciso dizer que já despertei pelo menos uns cinco alunos, a sensação é única.

2021: Alunos da 1ª E da Escola Zita de Godoy Camargo entrevistam o vice-diretor Profº. Luciano

Diário de Campo #01

Rio Claro, 7 de setembro de 2021

Antonio Archangelo.

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